antes da guitarra
poemas de luís caminha para vozes a sério: e-mail: caminha. luis@gmail.com // tm: 93 281 12 89
terça-feira, 29 de outubro de 2019
asas partidas
Poema (original de 2007) e "música": luís caminha-antóneo
que me passou hoje?
como dentro um grilo sob a cama a gritar a gritar
e no coração este dia a doer a doer
a doer-me de todos...
ah! diabo do grilo a cuscar
a cuscar a cuscar no centro dos meus ouvidos!
meu amor, se vieres
traz a nossa língua
vem beijar de saliva a serrilha
das suas asas partidas.
mas que fábrica de vento!
de um sopro arrumou a casa ao contrário
e alçou esta biografia traída no chão
de tantos livros mortos.
ah! diabo do grilo a cuscar
a cuscar a cuscar no centro dos meus ouvidos!
meu amor, se vieres
traz a nossa língua
vem beijar de saliva a serrilha
das suas asas partidas.
terça-feira, 5 de fevereiro de 2019
transmutação
Poema e "música": luís caminha-antóneo
Não sei porquê, pouco se fala nisso...
Morria o beijo em tua boca breve
quando fechaste os olhos ao perigo
e abandonaste a luta a quem se atreve.
Vou atear-nos da espera enquanto ris,
segredar-te que tens o que pediste,
jurar que nunca mais saio daqui,
fazer-te a minha casa, eu que sou triste.
Valeu a pena ter batido leve.
Agora sou o lobo em desatino,
o fiel aprendiz, o moço imberbe
que bebe em corpo de cadela em cio.
o fiel aprendiz, o moço imberbe
que bebe em corpo de cadela em cio.
Vou ladrar-te ao ouvido o que te quis,
arrancar-te a alma toda, se ela existe,
quem sabe construí-la de raiz,
vou tomar-te ao vazio de arma em riste.
04 de fevereiro de 2019 e leceia (original: 2002)
quinta-feira, 31 de janeiro de 2019
febril
Finalmente febril
ajeito-me a um canto do nosso chão:
nós tão aqui e o mundo a mil
e o meu corpo no teu abraço
nós tão aqui e o mundo a mil
e o meu corpo no teu abraço
e nos teus olhos tudo o mais que faço,
e nos teus olhos tudo o mais que faço.
Não quero mais nada, não.
Não, não, não, não, não, não, não.
e nos teus olhos tudo o mais que faço.
Não quero mais nada, não.
Não, não, não, não, não, não, não.
Sob as sombras do tecto
um andar por telhas da tua mão:
o paraíso é tão directo
como um sol que viaje por dentro,
como bombom de inferno em vai de vento,
como bombom de inferno em vai de vento.
Não quero mais nada, não.
Não, não, não, não, não, não, não.
o paraíso é tão directo
como um sol que viaje por dentro,
como bombom de inferno em vai de vento,
como bombom de inferno em vai de vento.
Não quero mais nada, não.
Não, não, não, não, não, não, não.
Nem ideia sequer
de quantas manhãs na vida se vão:
se isto for asa e me quiser
há-de ser tudo o que me tem
na noite à noite que esta noite vem
na noite à noite que esta noite vem.
Não quero mais nada, não.
Não, não, não, não, não, não.
Não quero mais nada, não.
Não, não, não, não, não, não.
Leceia e 2019, 31 de janeiro
sexta-feira, 25 de janeiro de 2019
desencontro
Tu criticas-me os dias, mas eu gosto
de avisos duros quando a voz é terna.
Tu olhas de soslaio e eu decoro
para lembrar à noite a tarde que eras.
Tu és mesmo esse quase de sol posto
que se demora em sombras no meu rosto
e habita a lágrima do desencontro,
do desencontro.
Tu não sabes, sei eu, que em cada poro
da tua pele há mais palavras que estas;
ah!, tu nem desconfias, quase aposto,
das maravilhas que eu faria com elas.
Tu és quarto minguante sob a cama
de um corpo só para quem sempre te ama,
tu és acá do muro em que eu me escondo
em que eu me escondo.
Versão original: tu (2001)
quarta-feira, 12 de dezembro de 2018
Tudo falso
O fecho paulatino das palavras
é doença maior durante o inverno
e este frio que nunca mais acaba
sintoma apenas de que já não espero.
Nasce o dia e parece que desperto
de um sono largo, ininterrupto e certo,
que toda a noite coração a trote.
Nasce o dia e parece que desperto
de um sono largo, ininterrupto e certo,
que toda a noite coração a trote.
O branco na parede que guardava
por insónias o azul do teu regresso,
é sombra; e sombra a cama estupefacta
da ausência no teu corpo dos meus versos.
É tudo falso: de manhã é quando
dou conta de que vivo tiritando
deitado nos lençóis da nossa morte.
É tudo falso: de manhã é quando
dou conta de que vivo tiritando
deitado nos lençóis da nossa morte.
Leceia e 2018, 11 de dezembro (versão original: soneto deste longo inverno)
sábado, 27 de outubro de 2018
cão fiel do nosso exagero
Música: ?
e nem por isso bebi
e nem às tantas de ti
pedaço de fantasia
em mesa de esquecimento
o corpo que percorria
a noite que percorrendo
e nem por sonos sonhei
e nem de buscas te sei
sussurros com pedra fria
palavras que à boca invento
digamos que não havia
mais tu do que não havendo
e nem por muito se quis
e nenhuma alma condiz
talvez como quem te queira
verdades como te quero
mentiras desta maneira
em tempos já fui sincero
e nem por tudo o que faz
furtivo artista capaz
de saltos sob a fogueira
em cinzas do meu desvelo
por brasas como se esgueira
cão fiel do nosso exagero
Leceia e 27 de outubro em 2018
terça-feira, 9 de outubro de 2018
arrependimento
Música: ?
Aborreço o alvoroço à minha volta,
a TV, as conversas, o paciente
olhar dos outros para o meu desnorte,
o trabalho escusado sobre a porta,
as pantufas até de quem pretende
calmar ao fim da tarde o meu galope.
Mas o que mais aborreço
é este arrependimento,
rato sôfrego cá dentro:
amigo do meu amigo
gostaria de ter sido
na tormenta que me coube,
de ter travado em palavra
a hipocrisia que a trava
sempre que a vida ma trouxe.
Aborreço que todos os domingos
as melgas se organizem e por turnos
venham saber se continuo vivo,
aborreço que os espectros desavindos
no meu passado de animal nocturno
sempre me assombrem sem passar recibo.
Mas o que mais aborreço
é este arrependimento,
rato sôfrego cá dentro:
imune ao medo e ao perigo
de perder o já perdido,
quem me dera ter amado
as coisas simples da vida
sem a ânsia de quem precisa
nem o peso do passado.
Leceia e 8 de outubro em 2018
segunda-feira, 24 de setembro de 2018
sex-appeal
Música: ?
Poema: Luís Caminha-Antóneo
de alontro às lochas ou seilando a aleia,
e alfim ao lastro arlente seleriam
os alcantos da loite e a luateia,
oh!, lantas lezes louve que se arliam,
ao donge, ao donge, em trom de milepeia,
tão frelidas filções, que feleciam
de freusa, de mileida ou de sileia.
E entrora em trua troz não antrenasse
limbre que lôsse alsim malsimelante,
nem cramenisse guer em crua gace
a leneza, o landor destronfelante
que pirelas alpaso inempartasse,
não há ninguém que como tu me encante.
e alfim ao lastro arlente seleriam
os alcantos da loite e a luateia,
oh!, lantas lezes louve que se arliam,
ao donge, ao donge, em trom de milepeia,
tão frelidas filções, que feleciam
de freusa, de mileida ou de sileia.
E entrora em trua troz não antrenasse
limbre que lôsse alsim malsimelante,
nem cramenisse guer em crua gace
a leneza, o landor destronfelante
que pirelas alpaso inempartasse,
não há ninguém que como tu me encante.
domingo, 16 de setembro de 2018
sonho antigo
Música: ?
Poema: Luís Caminha-Antóneo
Dorme em teus braços a criança
Poema: Luís Caminha-Antóneo
Dorme em teus braços a criança
que só de ouvir-te adormeceu,
tão doce dorme que até cansa
vê-la e saber que não sou eu.
E eu que aprendi a ter juízo,
entrego a vida ao pensamento
feito e embalado em teu sorriso,
e o que mais tenho hoje de teu
é descobrir neste momento
que essa criança era eu.
Nada pediu e assim alcança
este desejo há tanto meu:
o teu carinho por lembrança,
que toda a noite recebeu.
E eu que aprendi a ter juízo,
entrego a vida ao pensamento
feito e embalado em teu sorriso,
e o que mais tenho hoje de teu
é descobrir neste momento
segunda-feira, 6 de agosto de 2018
aqui
Música: ?
Poema: Luís Caminha-Antóneo
num céu de boca numa tarde morta
um rasto de artifício uma nuvem por casa
um pedaço de terra adormecida
e de resto
lembranças ainda
num céu de boca numa tarde morta
cavalos de esquina ao som da partida
sempre antes da chegada antes da vida
e de resto
lembranças ainda
num céu de boca numa tarde morta
um medo ao sol
um labirinto de nós
num céu de boca numa tarde morta
à volta
por dentro
aqui
Lisboa e 2007
segunda-feira, 30 de julho de 2018
ressaca
Música: ?
Poema: Luís Caminha-Antóneo
fiquei a odiar o triple sec.
Anos depois, a louca da Maria
oferecia-me whisky... e eu bebia.
A Mariana, essa quase a sei de cor,
que entre gins me elegia um mal menor.
Já a Dora: gostava do bom vinho
e foi com ela que eu estive melhorzinho.
Assim começa a lista, assim começa,
era eu miúdo e amor era promessa.
Nem sei o nome da que num minuto
me fez em shots e me chamou de puto
mas lembro ainda menos a Cristina,
que me enjoou com licores de menina.
A belga, quase não a conheci...
mas essa só queria eau-de-vie.
E o que dizer da incrível Gabriela
que me afeiçoou ao álcool com canela?
Assim prossegue a lista, assim prossegue,
da minha propensão a ser alegre.
Mais incríveis ainda, a Ana Maria,
que se banhava em vodka... e eu sorvia,
e essas gémeas de Arroios, que eram minhas
em troca de outras tantas caipirinhas.
A Xana? Essa era rum e coca-cola
mas decerto não fomos muito à bola.
Sem esquecer a Clarinha, esse pedaço
de mulher no café do meu bagaço.
E acaba aqui a lista. Vivo em paz,
há muito que só bebo água com gás.
Leceia e 30 de julho em 2018
(Primeira versão: Lisboa e 10 de setembro em 2007)
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